Voz

           Voz. É algo que descansa no fundo de minha garganta, adormecida por todos esses anos. Sinto sua potência, o eco que pode produzir, a distância que pode percorrer. Ouço o tom grave que assumirá em minhas bravatas, tal qual tambor de marcha, ditando o ritmo da luta e inflando o coração dos guerreiros. E o suave timbre de quando cantar as coisas belas que vejo. É um instrumento como qualquer outro.

            Poderá fazer música de todo tipo, dependendo só do que eu quiser passar para o mundo. Poderá cantar cada nota a seu tempo, botando o mundo em marcha ou em dança. Será seu próprio megafone, a gritar protestos e exigir mudanças. A lançar teorias e revolucionar ciências.

Quando liberada,fará tremer o chão em que piso e estourar as taças em que bebemos, jogará tudo ao ar para depois reorganizar. Será a eterna ligação entre eu e o mundo, a janela que mostrará o que penso para quem quiser ver. Minha voz será a minha marca, meu espectro que rodará por aí mesmo depois que minha carne morrer. Pouco a pouco, eu inteiro me tornarei voz.

Não importa do que fale, falará. Não se calará a não ser por escolha própria. Rirá, seja de uma piada ou de quem tentar detê-la. Falará besteiras e errará, mas jamais se esconderá. Será o meu retrato na memória das pessoas, um pedaço de mim para que cada um carregue consigo.

Mas por que ela dorme? Porque não sai de seu aconchegante vão dentro de mim? Não sei como acordá-la, como botá-la no mundo.Tento, mas não consigo. No máximo, regurgito algumas reclamações, algumas sombras de minha verdadeira voz. Sinto que está lá, mas não sei como encontrá-la.

E o que serei sem ela? Um boneco de pano, jogado de um lado para o outro sem voz para protestar nem combater. Um criado mudo das vontades dos outros, utilizado como bem entenderem, obrigado a engolir qualquer coisa que arremessarem em mim.

Não, não posso permitir isso. Tenho que acordá-la, exercitá-la, fortalecê-la, ou ela nunca deixará de ser potencial. E potencial não realiza nada. Sem voz, sou só carne a espera de seu tempo de morrer. Carne a espera de apodrecer.


Autor: Cláudio Santos

Um comentário:

Anônimo disse...

Cláudio, acho que algum dia vão te bater por inveja :o O texto tá lindo! :]
Me parece que você conseguiu expressar mto da sua essencia (se eu disse besteira, ignora)... é exatamente a sua voz que as pessoas (pelo menos eu) vão levar, porque toda a energia do seu texto está em você, e ela vai te levar longe.

PS: "Um boneco de pano, jogado..." me fez lembrar do "9"...comentário inútil =}

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